Com o coração na boca. Talvez eu tenha descoberto que a vida não é tão simples como eu gostaria que fosse. De sonhos sou repleta, porém, realizá-los demanda esforços que por vezes me faltam. Mas aprendi com os anos, acima de qualquer coisa, aprendi. Crescendo me vi em um mundo onde nada me chega de graça, não que haja devido pagamento burocrático por meus atos, mas tudo o que tenho é por puro e simples merecimento.
Em grandes devaneios já estive, mas o que seria de uma mulher se um dia não colocasse os pés no chão? Defendo o meu sexo, porque tenho orgulho do que sou, mas mais do que uma feminista, não me atrai esse extremismo, sou humana. Então valorizo minha carne, meu sangue fluindo, meus neurônios em plena capacidade de funcionamento, até onde eu sei. O importante mesmo é saber que cá estou eu. Sobrevivi aos anos tortuosos da adolescência e saiu deste período grata por tudo o que me aconteceu. Anos passados com dramas mexicanos para o meu psicológico, que hoje encaro como miojo: simples, rápido e fácil.
O que me faz falta? Aquele arranjo. O arranjo dos beijos, o arranjo de flores mesmo, o arranjo na janta e depois o arranjo na cama. Nos arranjávamos de algum jeito, porque depois era só detalhe, caminho com espinhos, mas nos ajeitávamos. E faz uma falta imensa os pequenos sons. Como ratos no sótão são os passos pela casa, os talheres sendo mexidos na gaveta, o lápis riscando forte o papel. Como uma imagem solta, acaba por fugir fácil entre meus dedos uma imagem tonta, cinza. Fugia já sei se era de mim ou dos nossos caminhos, mas foge e tento agarrá-la com meus dedos suados de desespero porque faz falta. Sinto que preciso. Mas um lado meu grita alto, soando fundo que já não preciso, apenas quero, já cresci e não mais necessito. Talvez de água, um prato de comida no almoço e outro na janta, mas já não mais preciso da suavidade no sentimento, não mais preciso do desejo, não mais dependo do carinho para que faça sentido. Não mais preciso.
Mesmo assim, faz falta. E procuro acariciar as lembranças para que essas não se esqueçam de permanecerem vivas, em cor, em som, em fortaleza. Em fato existe algo nas lembranças que permite que continuem as profundezas, as realidades utópicas e então como classificar? Um bando de coisas, acho que lembranças, acho que saudades, acho que sentimentos, acho que confusão. Uma bagunça de faltas, uma bagunça de humanidade e fragilidade. Coloco ainda o chinelo, ainda bebo café, ainda fumo casualmente e ainda sonho ser alguém, a-l-g-u-é-m. Mas cheia de faltas, d’uma falta, da minha falta, d’uma coisa.
Caramba! Foi mais fácil um dia. Quando não era falta, quando era algo, positivo. É negativo agora? Mas foi grande, e ainda é, porque me toma tempo. Não dou tempo ao que não é grande ou relevante. Talvez seja pequeno, mas relevante. Talvez, numa ínfima possibilidade tudo isso seja algo para alguém, e não para mim, um alguém que eu fui um dia e não sou mais. A complexidade dentro de mim, de qualquer ser humano, me impede da certeza. Só sei que o buraco não foi buraco um dia, teve que estar preenchido um dia para ser buraco hoje. E o preenchimento é que tá fazendo falta.
I can’t imagine, I can’t imagine my life without you.
mimimi ):
(Source: ptrparker, via transponsters)
Agradeço, talvez, aos meus pais, por ter nascido em São Paulo. Não carrego a grande ambição de uma drástica mudança na minha vida financeira, muito menos sonho com momentos de estrelato. Frágil, comum e quase leiga, minha maior ambição é ser melhor pra mim.
Agradeço aos meus pais o privilégio que tive, a facilidade ao acesso e a leveza de sonhar. Não vim do nordeste e não conheço o Piauí. Não vim da Bahia, e só provei do vatapá. Desfiz hoje meu conceito de oriente e percebi que não sou nem i e nem migrante. Sou Paulista, preguiçosa por natureza e apressada por sociedade. Vivo nessa balbúrdia, mas sonho com a paz vinda junto com a modernização. Conheço o centro dos acontecimentos, do baixo ao alto patamar de intelectualidade. Não faço parte nem de um e nem de outro. Sou o meio termo, sou o balanceamento, o equilíbrio, a proporcionalidade.
Moro numa cidade individual, mas que compartilha. Faço parte de uma cultura feita de várias culturas singulares. Respiro a cultura de uma cidade doida, de todas as etnias e todos os fundamentos. Fui criada na diversidade, na controvérsia de opiniões, com pais separados e duas casas diferentes. Não sonho longe demais, nem perto também. Mas eu sonho. Sonho um coração paulista, um coração bem distribuído com várias possibilidades. Sonho os olhos da criança na rua, no crack, na creche e no bairro.
Sou paulista com orgulho. Sou brasileira. Sou a conhecedora em teoria e praticante de poucos mundos. Só faço questão desse mundo doido que enxe a minha cidade, cheia de particularidades importadas de todos os lugares.
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